Wednesday, March 21, 2007

Ou eu muito me engano Freud afirmou que o ciúme é um sentimento normal, como, por exemplo, a tristeza. Com isso, quis dizer que ele é natural, ou seja, que é inerente à condição humana.

Mas foi ali no Engenho Novo, no subúrbio da cidade do Rio de Janeiro que Bento de Albuquerque Santiago, mas popularmente conhecido como Bentinho, é que se teceu uns dos maiores romances psicológicos e patológicos de todas as Américas –se não o maior.
A trama é arraigada de fatos malevolentes que circulam as personagens principais, Bentinho e Capitu, que depois de tamanhas intrigas se casam, começando uma nova rodada de peripécias.
No entanto o que chama não só minha atenção mais de milhões de pessoas que o já leram, é a forma que “Machado de Assis” condensa e mistura as posições das personagens como corretas ou lascivas conforme sua condição, ou seja, bentinho afirmava e reafirmava – como se fosse um juiz – que não tinha duvidas da traição de Capitu, muito embora ele sempre deixando a ambigüidade às vistas.
É preciso tomar nota de uma única coisa, o ciúmes que Bentinho sentia. Pode-se dizer que doentio, capaz de criar em sua cabeça coisas inimagináveis ou reais, nunca se saberá, no entanto ele sempre patinará nas mesmas esferas. De certo nos provou que com quase que conhecimento de causa, sobre os reflexos que o ciúmes tem sobre ser humano, é a famosa psicologia reversa, com efeito e causa.

E segue o texto.


CAPITÙLO CXLVIII / E BEM, E O RESTO?

Agora, por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do coração?
Talvez por que nenhuma tinha os olhos de ressaca, de cigana oblíqua e dissimulada. Mas não é este propriamente o resto do livro. O resto é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi mudada por algum incidente. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus dos meus primeiro ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap. XI vers. 1: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se metas a enganar-te, com a malícia que aprender de ti”. Mas eu creio que não, e tú concordarás comigo; se te lembras bem de Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.
E bem, qualquer que seja a solução, uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto do restos, a saber, que minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me...A terra lhes seja leve! Vamos à história dos Subúrbios .

Machado de Assis, Dom Casmurro.

Friday, March 09, 2007

Moro em um lugar privilegiado da Grande São Paulo-pelo menos pra mim, distante uns 100 Km da capital, em uma cidade chamada Arujá. Muito embora não deixe de ser uma cidade, tem aquis uns 50 mil gatos pingados, no entanto inconseqüentemente resido eu ainda um pouco mais para a costa do pacifico (interior) nas tangentes extremas da cidade.
Lugar aonde não chega as mais diversas tecnologias e comodidades do mundo moderno. Aqui neste bairro, não tenho tv a cabo, não tenho internet banda larga, não tenho grandes redes de supermercados ao alcance das mãos, a comodidade dos mega hospitais, a interatividade social dos Barzinhos da noite.

Mas sabe por que gosto deste lugar.

Gosto porque aqui consigo ver e ouvir a chuva vindo bem ao longe, fazendo um barulho bom “acalmador’ “sussegante”, e um barulho como som de nome de Avó, daquelas bem bonachonas e cantantes.
Gosto porque aqui aprendi a nadar nos lagos quando menino, andar de bicicleta, jogar pião, soltar pipa e fazer também – já que hoje existem lojinhas especializadas em artigos de pipa.
Gosto porque aqui ainda persiste uma mata linda quando abro a janela.
Gosto por causa das goiabeiras, pés-de-ameixa, bambuzais e tangerinas de sabores e odores infinitos.
Gosto do Sabiá cantando de manhã no abacateiro.
Gosto porque aqui eu vivi criança, as espertezas e peraltices dos amores infantis.
Gosto porque aqui não “era” mais um rosto, um vizinho novo, um estranho, era parte da rua, das confusões de todos dos absurdos do cotidiano.
Gosto porque aqui aprendi o que é ter caráter.
E por fim gosto simplesmente porque gosto, como outras infinidades mais.

Escrevendo isto me veio um poema do capitão do mato.


Olhe Aqui, Mr. Buster
Vinicius de Moraes
Composição: Vinicius de Moraes

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em HollywoodUm poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia
Está muito certo que em ambas as residências O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavarCapazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra daCoréia.
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticasE suas portas se abram com célula fotelétrica.
Está muito certo Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fiCom alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros.
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas "estações" do ano.
Está tudo muito certo, Mr. Buster – o Sr. ainda acabará governador do seu estado E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?




Sem mais reminências

Tuesday, March 06, 2007

Divido o infinito em várias partes
Jogo-as no chão.


E numa poça d’água límpida as vejo
Agitam-se em movimentos excêntricos
Coreógrafa o circense, o labirinto,
o vivo


Eis que me aproximo
e com mãos de deus as pego
algumas escapam
outras gotejam em mim.

Inútil doma-las
No lugar novamente levanto-me.
uns passos ao contrário
rodopio,

e caio de braços na candura do céu estrelado.
Na vida sem fim...