Friday, March 09, 2007

Moro em um lugar privilegiado da Grande São Paulo-pelo menos pra mim, distante uns 100 Km da capital, em uma cidade chamada Arujá. Muito embora não deixe de ser uma cidade, tem aquis uns 50 mil gatos pingados, no entanto inconseqüentemente resido eu ainda um pouco mais para a costa do pacifico (interior) nas tangentes extremas da cidade.
Lugar aonde não chega as mais diversas tecnologias e comodidades do mundo moderno. Aqui neste bairro, não tenho tv a cabo, não tenho internet banda larga, não tenho grandes redes de supermercados ao alcance das mãos, a comodidade dos mega hospitais, a interatividade social dos Barzinhos da noite.

Mas sabe por que gosto deste lugar.

Gosto porque aqui consigo ver e ouvir a chuva vindo bem ao longe, fazendo um barulho bom “acalmador’ “sussegante”, e um barulho como som de nome de Avó, daquelas bem bonachonas e cantantes.
Gosto porque aqui aprendi a nadar nos lagos quando menino, andar de bicicleta, jogar pião, soltar pipa e fazer também – já que hoje existem lojinhas especializadas em artigos de pipa.
Gosto porque aqui ainda persiste uma mata linda quando abro a janela.
Gosto por causa das goiabeiras, pés-de-ameixa, bambuzais e tangerinas de sabores e odores infinitos.
Gosto do Sabiá cantando de manhã no abacateiro.
Gosto porque aqui eu vivi criança, as espertezas e peraltices dos amores infantis.
Gosto porque aqui não “era” mais um rosto, um vizinho novo, um estranho, era parte da rua, das confusões de todos dos absurdos do cotidiano.
Gosto porque aqui aprendi o que é ter caráter.
E por fim gosto simplesmente porque gosto, como outras infinidades mais.

Escrevendo isto me veio um poema do capitão do mato.


Olhe Aqui, Mr. Buster
Vinicius de Moraes
Composição: Vinicius de Moraes

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em HollywoodUm poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia
Está muito certo que em ambas as residências O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavarCapazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra daCoréia.
Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticasE suas portas se abram com célula fotelétrica.
Está muito certo Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fiCom alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros.
Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas "estações" do ano.
Está tudo muito certo, Mr. Buster – o Sr. ainda acabará governador do seu estado E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo?




Sem mais reminências

2 comments:

Ju Marques said...

Uma pitada de inveja da infância que não tive!

Por outro lado, tive tantas coisas boas tbm, e acredite ou não, embora não saiba andar de bicicleta, andei de carrinho de rolemã, empinei pipa, colecionei papéis de carta, brinquei de boneca no quintal de casa, caí da escada, me pendurei nas árvores "Chorão", me balancei nas balanças feitas com corda e madeira, amarradas em árvores...
Sei cozinhar no fogão de lenha, sei fazer docinhos q aprendi com a vó, costurar, bordar, crochê... (essas coisas de menina q são tão banais, mas q me remetem ao passado com o mesmo carinho e saudade, q vc deve sentir ao lembrar do peão, e de todas as brincadeiras de rua)...

Não q eu morasse no interior (longe disso! Sou mesmo uma menina da cidade grande!), mas tive ao meu lado pessoas que sabiam valorizar essas coisinhas da infância que nos tranformam em seres melhores, maiores.

E os vizinhos, poucos em quem confiei, a quem amei... mas são pra sempre. Kátia, professora q me indicou na escolinha, q o diga! - não sei se lhe falei, mas éramos vizinhas, na Rua Alexandre Acras.

Uma frase de Mario de Andrade ao falar da infância diz em parte que "tudo aquilo era impregnado de eternidade".

E não é que ele tinha razão?!

Ju Marques said...

Exagerei, eu sei.

Sorry!