Noites assim.
Deveria me opor a escrever em momentos assim, é injusto com tudo que é mais sagrado e injusto comigo mesmo.
Nestes instantes tudo soa estranho, indefinido e ao mesmo tempo voraz. Vem ofegante de tal maneira que te sufoca te mata cortando a carne profundamente.
E por que escrever nesses devaneios? Somente para respirar um pouco, colocar a cabeça para fora d’agua e voltar a mergulhar, colocar a cabeça para fora d’agua e voltar a mergulhar, em um compasso seguindo o caminho, o caminho da palavra , palavra que me salva, salva o menino matuto, salva o rapaz cosmopolita, salva do mundo bandido, salva das coisas bandidas.
Esse barulhinho de tecla apertada, do papel amassado, da chuva no telhado da casa, o barulho da poesia boa, é o barulho da palavra. Palavra só tem barulho, barulho que é som, som que vira calma, calma somente para aqueles quem tem alma, a alma herége e sem perdão.
Palavra amiga, do afã natural das coisas boas da vida, o afã da Boêmia.
E um brinde, um brinde à toda palavra que se finda, que só essa merece o aplauso que de fato se deve ter tal palavra, palavra sã, que cura sem querer ter para si algo em troca, palavra desprendida, desapegada, livre e só, apaixonadamente absoluta.
Essa noite precisei da palavra, muito mais do que naturalmente a palavra precisaria de mim, e por isso a palavra não saiu, fiquei sem ela, ela sem eu, os dois desvairados virados nesta cama, sem se entender, separados com a dor infinita nas mãos, que definitivamente não quero mais ter.
Mas de qualquer forma Viva a palavra!...
1 comment:
Viava às suas palavras...
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