Figurinha difícil
De Plínio Marcos:
Um dia eu estava em casa na maior das folgas, quando o Léo e o Kiko
chegaram da escola (a Aninha Festa ainda era nenê) afobados, gritando:
- Pai! Pai! O Zezinho tirou você na coleção Brasil Novo.
- Você é a trezentos e doze.
Trezentos e doze no jogo do bicho é burro. Na coleção Brasil Novo era eu.
Nem me toquei. Fiquei pasmo. Boquiaberto. Quando consegui falar, perguntei:
-Eu sou carimbado?
Não era. Não tem mais esse negócio de figurinha carimbada. Não é mais como antigamente, quando as figurinhas vinham embrulhadas em balas. Agora elas vêm num cartuchinho. Mas fiquei imaginando que eu podia ser uma figurinha difícil. Se eu for figurinha difícil, pensei, o moleque sabido tira um Plínio Marcos, chega no mais trouxinha e vai se apresentando:
- Deixa eu fazer malcriação em você? Eu te dou a trezentos e doze, o tal de
Plínio Marcos.
O cara tira uma trezentos e doze, imaginei ainda, e chega um colecionador
nele:
- Quer trocar? Te dou uma Transamazônica, um ditador sem pescoço, um
ditador de óculos, um ditador de cacete na mão, um ditador a cavalo, te dou
uma ponte Rio-Niterói e tu dá o Plínio Marcos. A trezentos e doze.
E o outro responde:
- Aqui, ói! Plínio Marcos é difícil.
Com essas idéias na cabeça, fui pra rua. Queria comprar minha figurinha.
Comprei duzentos cartuchinhos. Nenhum Plínio Marcos.
Fui pro centro da cidade. Logo um sujeito falou:
- Meu filho tirou você...
E outro
- É figurinha? Parabéns...
E ainda outro:
- Ta legal de figurinha.
E mais outro:
- Meu neto tirou...
E outro. E outro. E outro. Comecei a achar que tinha muita gente com figurinha de Plínio Marcos. Até que um amigo me deu uma trezentos e doze. Um legítimo
Plínio Marcos. Saí legal. Loirinho. Mostrei pra minha mãe. Ela estrilou.
- Veja lá. Artista, não gosto muito. Se vier loiro, não entra em casa.
Deixei pra lá. Mãe é mãe. O que me encabulou é que eu saí meio com cara de bunda. É, com cara de bunda. Não tem gente com cara de bunda? Tem gente com cara de coelho, cara de macaco, cara de cavalo. Não tem? Eu mesmo conheci um cara de bunda. Mas o que eu conheci era um bundão. Puta bundão. Ele passava cada vergonha por causa da cara de bunda que Deus lhe deu... Um dia ele, o cara de bunda, estava parado na porta de um teatro, quando chegaram duas mulheres, dessas bem xeretas.
Em todo lugar tem mulher abelhuda. Hoje mesmo deparei com uma. Ela me
olhou e foi logo me enchendo o saco.
- Nossa, como você está gordo!
Nunca tinha me visto na puta da vida dela. Mas nem por isso se acanhou.
Insistiu.
- Ta gordo mesmo. Um porco. Você sabe que ta gordo?
- Sei – respondi resignado. Mas ela continuou.
- Sabe nada. Sabe mesmo?
- Sei.
Gorda mesmo é uma amiga minha. Ela se casou. É, a gorda se casou e foi pra lua-de-mel. Sabe como é, primeira vez... inauguração... as pessoas ficam nervosas. O noivo da gorda mandou ver.
- Aí não, bem. Aí é a dobra.
Ele pôs pro lado. E a gorda:
- É dobra.
Os dois foram ficando nervosos. Ele tentava e ela reclamava:
- É dobra. É dobra. É dobra.
Aí o noivo implorou:
- Vamos, bem, dá uma mijadinha pra eu ter uma pista.
Mas, deixa isso de lado. Eu estava falando é da história do cara de bunda. Pois é, o carão de bunda. Estava com sua cara de bunda na porta do teatro, quando as duas xeretas flagraram ele. A primeira que viu cochichou pra outra.
- Não olhe agora. Mas ali está o maior cara de bunda que eu vi na vida.
- Onde?
- Ali. Mas não olhe assim, que ele está olhando.
- Mas onde ele está?
- Ali. Ali. Ali.
- Não aponta. Já vi. Meu Deus, meu Deus, ele não é o cara de bunda. È a própria bunda que vestiu a calça errada. A bunda ficou pra cima.
- Não, não. É a cara dele mesmo que é de bunda.
- Não é a cara. É a bunda.
- É a cara.
- É a bunda.
- Não teima. É a cara.
- Não, não! Tenho certeza, é a bunda.
- Olhe bem, repare. Se fosse a bunda, a boca estava em pé. Como é cara de
bunda, a boca está deitada.
-É mesmo, você repara em tudo. Mas tem uma coisa: ele não pode fumar charuto. Se mete um charuto na boca... bom , se põe um charuto na boca, ninguém vai saber se está entrando ou saindo.
- Será que ele sabe?
- Que tem cara de bunda? Alguém já deve ter falado.
- Que nada! As pessoas, sabe como é, são hipócritas. Ninguém fala.
- Isso é.
- Vamos perguntar.
- Eu tenho vergonha. Pergunta você.
As duas deram o braço e foram até o cara de bunda.
- Meu senhor, ainda que mal pergunte... o senhor sabe que tem cara de bunda?
E o cara de bunda:
- Quem? Eu? ... Pruprupru... (barulho de peido)...(a crônica continua)
Procure em:
MARCOS, P. Figurinha difícil: pornografando e subvertendo. São Paulo: Editora
SENAC, 1996.
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